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Princesa Aurora

por Weslley Souza Jesus*

A vela queimava enquanto Aurora punha-se perante a janela de sua torre a pensar. Olhava as estrelas... Sim as estrelas, seus pensamentos divagavam e se deliciavam enquanto experimentavam cada pedacinho de nuvem, subiam em espiral tocando as estrelas e fazia uma enorme parábola de um canto a outro no céu, depois sempre parava e contemplava a lua. Não sei dizer exatamente quais pensamentos passavam por sua cabeça, talvez nem ela mesma saiba, mas ela poderia ficar ali a noite toda.

Seu pensamento jovialmente doce, sempre era interrompido quando eventualmente seus olhos se cansavam e ela avistava o horizonte. Da torre era possível ver grande parte do reino. Um aperto no coração a afligia, dependendo do horário, se não fosse muito tarde, sua visão cambaleava até as crianças que pareciam formigas se divertindo na rua, não poderia ver seus rostos, mas ela tinha certeza de que estavam sorrindo. Via um pouco mais perto, o casal apaixonado que todas as noites trocavam beijos e caricias próximo ao muro do castelo, Aurora os apelidou carinhosamente de Safira devido ao seu cabelo – os cabelos da garota eram negros mas em determinada época em que a lua estava cheia e o casal estava mais perto do lago, eles ficavam com uma tonalidade que lembrava o azul da joia – e o homem ela apelidava de Boris, ele tinha ombros largos e fortes. Até mesmo os guardas pareciam mais livres que ela, certa vez presenciou dois deles entornando galões de vinho no meio da noite, até caírem no sono, falavam tão alto que quase dava pra se ouvir do topo da torre.

– Minha senhora ainda permanece desperta?

Aurora deveria estar distraída de mais com seus pensamentos...

– Não vê que ainda estou consciente e fora de minha cama Susana? Descubra uma ocupação de seu nível junto aos outros vassalos e não me estorve mais.

A serviçal abaixou a cabeça e se retirou da vista de Aurora fechando a porta do quarto.

Aurora pôs-se novamente aos seus devaneios, mas não nos de outrora e sim no ocorrido no quarto, lembrou-se das aulas árduas que tivera, foi-lhe ensinado e muito bem, como tratar os empregados, obviamente ela não gostava disso, certamente fazia parte de sua prisão e certamente não teve essas aulas com sua mãe. Mamãe era ocupada de mais pra dar tempo para a filha, nem mesmo a amamentou, pagou uma das serviçais para que o fizesse. Recebeu presentes em seu aniversário, mas nenhum pessoalmente, as celebrações do reino eram o mais perto que chegava de seus pais, o espartilho apertado e o sorriso no rosto ao cumprimentar o príncipe de um reino impronunciável, recebia o cortejo forçado do homem com um nojo em seu íntimo e um encantamento falso no olhar.

Voltou seus pensamentos para Safira e Boris que desta vez se encontravam entrelaçados, queimando sua paixão provavelmente proibida, a final, por que mais eles se encontravam tarde da noite? Queria ela poder sair à noite e se encontrar com um rapaz de sua escolha, entrelaçar seus lábios com os dele como se não houvesse um dia após aquele, como se a aurora nunca chegasse...

-Queria eu ter nascido plebeia, filha de um ferreiro ou de um estalajadeiro.

Queimar toda minha existência, sorrir como as crianças sorriem...

Aurora ficou de pé do lado de fora da janela e inclinou o corpo olhando para baixo, fazia bastante esforço para se segurar.

Pensou no que aconteceria se ela se solta-se e deixasse seu corpo cair como uma pena, levemente sendo atraída até o chão e acabando com toda angustia de imaginar por que tinha uma vida tão infeliz. Inclinou mais ainda seu corpo e podia sentir o vento carregando seus cabelos. Um último mergulho e sua vida estaria findada, uma primeira e última emoção, seria um salto de fé, onde ela atingiria a gloria em busca da vida intensa que desejava, voar como os pássaros, suas assas ruflariam como as de um anjo e desceria de abraços abertos e coração feliz para abraçar o chão frio do pátio, ninguém sentiria falta.

Sua visão subiu para se despedir dos dois guardas que às vezes se embriagavam as escondidas. Os saudou de longe mesmo não sendo vista, sussurrou um boa noite. Olhou para Safira e Boris que estavam aos beijos e quis que a vida deles fosse intensa e que o amor deles nunca acabasse, desculpou-se por desejar ter a vida lasciva deles. Olhou para as poucas crianças que ainda estavam na rua, quis que a vida deles fosse longa e transborda-se felicidade. E finalmente olhou para as estrelas as nuvens e a lua, seus olhos se encheram de lagrimas...

Entrou novamente em seu quarto, pegou a vela e levou para mais próximo da cama, retornou até a janela, seu olhar vagueou novamente pelo céu até que ela o interrompeu, fechou a janela e se deitou para mais uma noite de sono.


* Weslley Souza Jesus é estudante do Instituto Federal de Brasília, Campus São Sebastião


12 a 16 de julho de 2016

No Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá


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