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Tocaia

por Carol Capuzzo*

A tocaia era tensa. Olhos atentos a tudo que se movia ou que poderia vir a se mover. O silêncio imperava e o único som que ainda se podia ouvir era o descompasso da minha respiração e a vibração da energia contida em minha Azulina.

Ah! A minha Azulina. A primeira vez que a vi não dei nada por ela. Estava em pleno trânsito fervoroso – muito movimento e muito quente – quando minha mãe, num alvoroço todo, começa a me chamar e apontar aquela figura estranha que vinha andando num sentido zig-zag por entre os carros.

Uma pequena sombrinha no estilo boné fincada na cabeça, um monte de bugigangas penduradas nos ombros e braços; e na mão, minha futura Azulina. Lá vinha ele fazendo-a estalar como se fosse um dia festivo. E para acompanhar seu som, aquela figura singular, gritava com plenos pulmões “Olha a raquete mata mosquito, infalível e impassível!”

Fiquei louca, foi amor à primeira vista! Logo me imaginei “agora sim, quero ver aqueles monstrengos barulhentos que me atrapalham o sono e que me deixam cheia de hematomas”, minha vingança será tremenda. E assim nos tornamos quase que únicas.

Mas esta espera já está me dando nos nervos. No início era fácil. Os monstrengos eram maioria e se achavam os donos do pedaço. Quando cheguei com minha companheira foi uma peleia aflita e urgente. No entanto, sempre tem aqueles que insistem e se fortificam. E aqui estou eu, em tocaia, só esperando a sentença final. Mas ele é ágil. Passa por mim numa velocidade em que meus olhos não o alcançam. Apenas aquele som alucinante que se deixa captar por meus ouvidos. Ele faz para provocar, quer me ver numa ira fulminante.

Ali ficamos, numa dança sem ritmo, num ir e vir fora do compasso, numa batalha ultrajante; quando num descuido do sustenido e falsete do bemol, o monstrengo perde o passo e depara-se com a bocarra arfante da minha Azulina. Ela o devora em um único golpe e o degusta em vários estalos. Ela o cospe aos meus pés. Ele, sem vida alguma. As asas abatidas, pernas estendidas e olhos em X.

Por um instante a satisfação da guerra vencida me consumira. Eu o olhava com admiração. Admiração não por ele, e sim por mim, por ter conseguido abatê-lo, por ter sido implacável. Contudo, essa sensação logo passou e mergulhei numa solidão sem fim. Eu acabei com a vida do monstrengo, mas também limitei a minha. Agora não haveria aquele som fora do compasso e nem a dança desordenada.

Minha Azulina perdera sua motivação de existência; sua energia emitia sons de despedidas, como se me dissesse “Tarefa cumprida, adeus!”.

Esses segundos que tempestearam meus pensamentos se faziam eternidade; e meus olhos destocaiados e aflitos, vidraram no monstrengo e por um lapso viu-o mexendo-se. Não acreditei. Ajoelhei-me sobre ele e me aproximei. As asas realmente se moviam e meus ouvidos já podiam captar aquele zunido baixinho e distante.


Peguei-o com toda delicadeza que jamais consegui dedicar a alguém, e coloquei-o na palma da minha mão. Ele começou a se movimentar com mais velocidade e voou. Sim, voou, mas para a ponta do meu nariz. Pousou ali e ficou a me encarar.

Por certo momento me pareceu terno aquele instante, até ele inflar o peito e com toda força, velocidade e barulho, tirar um rasante, num som irritante, dos meus ouvidos. E aquela cena terna, transformou-se numa segunda guerra pernilongal.

* Caro Capuzzo é o nome de escritora de Ana Carolina Capuzzo de Melo, professora, do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia (IFB), campus de São Sebastião, DF.


12 a 16 de julho de 2016

No Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá


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