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Marílias

por Ruana Carla Santiago de Andrade*

Marília da Silva era uma estudante de Letras da Universidade de Brasília, tinha 21 anos, residia no Varjão, era negra e pobre, e muitos a subestimavam. Trabalhava meio período na biblioteca da universidade, gostava muito do que fazia, tinha muitos amigos, mas uma família desestruturada, sua mãe era alcoólatra e seu pai estava desaparecido, tinha dois irmãos, mas estes foram mortos pela polícia, apesar dos pesares, Marília era uma aluna exemplar e sonhava em mudar a sua realidade e a de sua comunidade. Há três semanas, em um dia comum no seu trabalho, Marília percebeu olhares estranhos e intimidadores de seu colega, foram poucas conversas trocadas, Marília não o conhecia direito, nem sabia seu nome, mas, por algum motivo, ele a conhecia bem, Marília nunca havia percebido como aquele garoto a olhava, não eram olhares de admiração, não eram olhares comuns, Marília sentiu medo, mas não pôde fazer muita coisa, era o emprego dela e ela precisava daquilo.

Saindo da sua última aula, às 21 horas, Marília recebe uma ligação de sua amiga, amiga essa distante, que mora em Recife, Marília está planejando visitá-la nas férias.

– Marília! Cê tá sumida! – diz sua amiga ao telefone.

– Ah, oi! Desculpa, Fê, tive tanta coisa pra fazer nesse fim de semestre, me sinto mais livre agora!

A conversa continua por mais alguns minutos e acaba. Marília é vaidosa e decide dar uma passadinha no banheiro pra se arrumar antes de ir embora, ela encontraria alguns amigos depois dali, para comemorar o fim do semestre. A porta do banheiro está entreaberta, não há mais ninguém, Marília entra e começa a se aprontar, arruma seu turbante, passa seu batom... alguém entra no banheiro, pelo reflexo do espelho, Marília percebe, não é outra mulher querendo se arrumar, é um homem, aquele cara lá da biblioteca, visivelmente atordoado e com ódio nos olhos, Marília tenta gritar, mas o homem a cala.


Marília foi machucada, humilhada, violada, abusada, estuprada naquela noite, seu corpo estava sujo no chão, seu rosto encharcado de lágrimas, seu batom borrado, seu turbante rasgado. Voz? Ela não tem mais, não tem forças pra se levantar, a dor era física, mental, emocional. Naquela noite, Marília não encontrou seus amigos, sua viagem seria desmarcada, o semestre acabou, a vida continuou, ninguém viu, ninguém ouviu, por dentro Marília se perguntava o motivo e não achava respostas. Pobre de Marília, não via, o motivo é que ela era Mulher. O estuprador estava vivo, Marília não mais viveria, apenas existiria.


*A autora é estudante do 2º ano do Ensino Médio do Centro Educacional Darcy Ribeiro, do Paranoá (DF); reside no Paranoá, DF.


12 a 16 de julho de 2016

No Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá


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