Ana Miranda: romance de aventuras para ilustrar a poesia brasileira

A escritora Ana Miranda é um dos principais nomes da segunda edição da Jornada Literária. Boca do Inferno (Companhia das letras, 1989), seu livro mais conhecido, está sendo lido por alunos de duas escolas que estão no perímetro da Jornada (Gama, Santa Maria, Recanto das Emas e Samambaia). E como o objetivo do evento é justamente aproximar escritor e leitores, ela irá conversar com os alunos sobre Boca do Inferno, um romance histórico que se passa na Bahia do Brasil colonial. Além disso, Ana Miranda ainda dará uma palestra e participará de um debate. Ela conversou com a página da Jornada e falou sobre escrever para adultos e crianças, sobre sua expectativa para o evento, sobre romance histórico – sua especialidade – e, claro, sobre Brasília, cidade onde morou quando ela e a capital do país eram ainda duas meninas.

 Boca do Inferno está sendo lido por duas turmas de alunos que participarão da Jornada. Qual sua expectativa em relação à recepção que a obra terá por jovens dessa geração, quase 30 anos depois de ser lançado?

Esse romance tem sido sempre lido por estudantes, desde que foi lançado, ele sempre é adotado em escolas, indicado para vestibulares, os professores gostam de usá-lo para fazer uma contextualização do barroco brasileiro, e parece que os estudantes gostam, estranham um pouco algumas palavras, mas o livro tem muita ação, movimento, lutas de capa e espada, cenas de amor, cenas de violência, propriamente como nos filmes aos quais eles estão acostumados a assistir. Enquanto isso, vamos ilustrando nossos estudantes sobre poesia e sobre literatura.

Num país que dizem ser sem memória, ignorante de sua própria história, Boca do Inferno pode ser uma oportunidade de despertar o interesse de uma geração, tão ligada à instantaneidade dos fatos, pela história do Brasil?

Talvez ocorra, aqui e ali, mas o livro não é realmente sobre a história do Brasil, fala da história literária, ele desperta um encantamento pelo passado, coisas muito novas e costumes diferentes são mostrados pelos aspectos correlatos à trama. Sei que tem despertado algum debate político, especialmente acerca das raízes da corrupção e da impunidade em nosso país, do que de certa forma o livro trata.

Aliás, qual a importância do romance histórico na formação da sociedade? Ele é uma forma de sentirmos prazer conhecendo a história?

 Sim, é uma forma de criar um novo olhar sobre o passado e sobre, em alguns casos, a história. A importância não se resume a isso, conhecimento da história, ele foi criado e existe como um segmento literário de reforço das identidades culturais, os primeiros romances históricos eram apologias a heróis e fatos e culturas. O assunto, para quem se interessa, é muito bem visto por Lukács em seu livro O romance histórico.

Você participará também de um debate cujo tema Imaginário Brasileiro na Ficção é bastante amplo. O que se pode dizer sobre isso?

 Realmente, bastante amplo, ainda não sei o que vou dizer. Mas acho que vai ter uma relação com a minha experiência em Brasília, em escolas formuladas pelo Darcy Ribeiro e pelo Anísio Teixeira. Brasília é uma espécie de imaginário brasileiro em catálogo.

Como é escrever para adultos e crianças? Alguma dessas duas facetas te dá mais prazer? É mais difícil, desafiadora?

 Escrevo para adultos, escrevi alguns livros para crianças, pensando nos meus netos, mas eles agora estão adolescentes. O desafio de escrever para crianças é falar a língua delas e defendê-las contra qualquer risco, as crianças ainda não têm defesas e espírito crítico, embarcam ingenuamente, como nessas ofertas de consumo colorido. Mas nada chega perto da dificuldade que sinto de escrever meus romances, em geral.

Sua vivência de Brasília parece contida em Flor do Cerrado. Da sua infância pra cá, o que mudou (se realmente mudou) na sua visão, sentimentos sobre a cidade?

Os sentimentos são os mesmos, amo Brasília, sinto-me pertencer à história da cidade, aí vivi parte da minha infância e a minha adolescência, fases importantes de minha vida, e foi uma experiência fascinante. Mas a cidade em que eu vivia já não existe mais, só mesmo nas minhas lembranças.

Se você fosse a primeira professora de literatura de uma turma de ensino médio (1º ano), como faria para apresentar a literatura aos alunos? O que, em sua opinião, seria importante destacar na primeira aula?

 Eu ia escolher um livro bem gostoso, bonito, e ia ler para eles, comentando. Depois ia pedir para eles lerem. Depois ia pedir para eles trazerem um trecho de um livro. A leitura em voz alta ajuda muito a criar concentração. Inventava um jogo com o livro, eles estão muito acostumados a jogar. E levava pra dentro da sala um baú de livros para ficarem ali o tempo todo, à disposição. É importante a convivência com o livro.

Que livros você recomendaria para as crianças e os adolescentes de hoje em dia?

 Acho que precisam ler os clássicos, o cânon, tipo Vinte mil léguas submarinas, Robinson Crusoé… mesmo lendo e assistindo ao filme adaptado do livro. Há muitos mais eletrizantes ainda, como Oliver Twist, ou o Blade Runner. Faria uma programação assim, de leitura e filme. Talvez, não sou professora, sou aprendiz.

 

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